Vou te fazer uma pergunta que talvez incomode. E se a pior coisa que aconteceu com você tiver sido, lá na frente, a melhor? Não apesar da dor. Por causa dela.

Calma que eu não estou falando da morte de alguém que você ama. Estou falando de perda material, de um fracasso, de um projeto que foi por água abaixo. Aquela demissão que te deixou no chão. O relacionamento que terminou do pior jeito. A frustração que você ainda carrega.

E já adianto: isso aqui não é papo de "olha pelo lado bom". Esse tipo de conversa eu não gosto. É sobre olhar pra verdade dos fatos, que é bem diferente.

Duas pessoas, a mesma perda, dois destinos

Antes de qualquer coisa, deixa eu ser honesto com você. A sua dor foi real. Eu não vou dizer que não foi, nem vou dizer que o que aconteceu foi justo. Na maioria das vezes, a vida acontecendo não é justa. Não é porque você é boa pessoa que o resultado vem. Funciona assim, e é duro.

Agora imagina a cena. Duas pessoas são demitidas no mesmo dia, na mesma empresa, pelo mesmo motivo. Uma sai dali convencida de que a vida está contra ela, que ela não presta, que aquilo foi o sinal de que nada mais vai dar certo. A outra sai abalada também, sofrendo, não queria perder o emprego. Mas em algum momento ela pensa: acabou aqui, o que eu faço agora?

O evento foi idêntico. A narrativa foi oposta. E é a narrativa que decide o que aquilo vira nos meses e anos seguintes. Não estou dizendo que uma sofreu menos que a outra. São dois seres humanos iguais. O que muda o tamanho do sofrimento é se a pessoa construiu fortaleza, paciência, se ela colocou expectativa alta em coisa que não dava pra controlar. No fundo, é o quanto ela está forte ou frágil por dentro naquele momento.

Por que o cérebro aponta o dedo pra você

Tem uma coisa que só existe de verdade naquela história das duas pessoas: acabou para as duas naquela empresa. As duas foram demitidas, ponto. O resto do sofrimento não vem do fato. Vem de uma construção de porquês que o cérebro vai montando por cima.

E isso é normal. O cérebro busca explicação pra tudo, é um mecanismo de sobrevivência. Entender a causa aumenta a chance de evitar o problema de novo. Se eu fui demitido por um comportamento meu, eu mudo o comportamento. Se foi por uma decisão ruim, eu passo a decidir com mais cuidado.

O problema é quando o evento dói demais. Aí a explicação que o cérebro acha primeiro é a mais simples e a mais destruidora: o problema é você. Ele monta uma história inteira de inferioridade, de incapacidade, de culpa. E na maioria das vezes essa história não é verdade. Era um problema técnico, de comportamento, dá pra melhorar com o tempo.

Repara no risco. Se você olha pra dor e pega o sentimento como se fosse a verdade, a sua reação vai ser se proteger. E a proteção favorita da mente é não tentar mais, não se expor, não arriscar. Em vez de melhorar o comportamento e buscar fazer melhor, você se encolhe pra não sentir de novo.

"Se você não modela as suas crenças, quem modela elas é a sua dor. E a dor é uma péssima conselheira."

Carlos Homem

Quando a dor vira crença

Se você não questiona essa história que a dor contou, ela vira crença. E a crença passa a mandar nas suas escolhas, nos seus comportamentos e, no fim, nos seus resultados.

Pensa na pessoa que foi traída. Ela passa a acreditar que não é digna de amor. Não porque isso seja verdade, mas porque o cérebro montou essa explicação pra dar conta da dor e se proteger. E ninguém nunca questionou essa conclusão com ela. Aí ela vive os anos seguintes agindo a partir de uma mentira que ela mesma passou a tratar como fato.

É assim que eventos ruins somados viram bloqueio. Travam a vida pessoal, o trabalho, os relacionamentos, o dinheiro. E o pior é que, muitas vezes, a pessoa nem sabe que carrega aquilo. Ela só se sente frustrada, batendo na mesma parede, correndo atrás do próprio rabo.

Um cuidado, pra eu não ser mal entendido

Aqui eu preciso separar bem uma coisa, porque tem conselho que parece o que eu estou dizendo e é o oposto.

Tem aquele tipo de fala, "seja grato pelo que aconteceu, tudo acontece por uma razão". Soa bonito. Mas dito cedo demais, pra quem ainda está no meio da dor, isso não ajuda em nada. Só invalida. Quem está sofrendo não precisa achar o lado bom de coisa nenhuma. Precisa que a dor seja reconhecida como real, e pronto. Está sofrendo? Está. Acabou, fica aí um tempo.

O que eu proponho é outra coisa. É uma pergunta que você faz depois, quando já processou o suficiente pra conseguir olhar pra trás sem ser arrastado pelo evento. A pergunta é: o que isso produziu em mim que eu não teria sem isso? Não é pra forçar a conta a fechar no positivo. É pra recuperar o que foi construído ali dentro, mesmo na dor. Porque quase sempre alguma coisa foi.

O padrão que eu vejo há anos

Em anos de atendimento, um padrão aparece sempre, e é bem claro. As pessoas mais sólidas que eu atendo, as que têm mais autocontrole, mais base emocional, mais capacidade de ajudar quem está do lado, quase todas passaram por algo muito difícil.

Não é por terem sofrido. É por terem feito alguma coisa com o sofrimento. Decidiram virar a chave. Mulheres que perderam tudo num divórcio duro e hoje estão inteiras, empreendendo, se relacionando com gente melhor. Um homem que faliu várias vezes e hoje decide com uma firmeza que ele não tinha na época em que quebrou.

Não foi o evento que formou essas pessoas. Foi o que elas decidiram fazer com cada evento. É aquela virada de olhar: talvez isso não aconteceu com você, aconteceu para você. E eu sei que falar isso pra quem está no meio da dor pode soar como descaso. Não é. É o contrário.

O que fica em aberto

Deixa eu te falar uma verdade dura e, ao mesmo tempo, libertadora. A pior coisa que aconteceu com você não vai deixar de ter acontecido. Não tem como desfazer, não tem como esquecer. Muita gente me procura querendo apagar uma lembrança, porque ouviu por aí que dá. Não dá. Quando foi algo relevante, a lembrança fica.

O que dá pra mudar é outra coisa. O que aquilo significa. O que aquilo produziu. O que você faz com o que foi construído em você, no seu olhar sobre si mesmo e sobre o mundo. Isso ainda está em aberto. E a resposta pra essa pergunta é o que decide se o evento mais difícil da sua vida foi o que te freou ou o que te formou.

Essa virada de narrativa nem sempre acontece sozinha. Às vezes o que foi guardado está fundo demais, virou crença, e força de vontade não alcança. Quando é esse o caso, dá pra trabalhar isso na raiz, e você não precisa fazer sozinho.

Quer trabalhar isso na raiz?
  • Identificar os bloqueios que um evento antigo deixou em você
  • Separar a dor real da história que o cérebro montou por cima
  • Mudar a crença que está governando as suas escolhas de hoje
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Atendo presencial em Curitiba e online pro Brasil inteiro. Se quiser entender como funciona, dá uma olhada na página de hipnoterapia, ou me chama direto. A escolha, no fim, sempre vai ser sua.

Se você está passando por um momento de dor intensa e sente que não dá conta sozinho, procure apoio. Você pode ligar para o CVV no 188, a qualquer hora, de graça e em sigilo.

Fontes e Referências
  • Tedeschi, R. & Calhoun, L. (2004). Posttraumatic Growth: Conceptual Foundations. Psychological Inquiry.
  • Frankl, V. (1946). Em Busca de Sentido. (sentido construído a partir do sofrimento)
  • Pennebaker, J. (1997). Writing About Emotional Experiences as a Therapeutic Process. Psychological Science. (ressignificar pela escrita)
  • Dweck, C. (2006). Mindset. Random House. (como a interpretação do fracasso molda o resultado)