O mercado global de wellness vale mais de 5 trilhões de dólares. Tem app de meditação, retiro de ayahuasca, coach de propósito, curso de gratidão, podcast de neurodivergência, programa de jejum intermitente com ancoragem emocional. Tem de tudo.

E os índices de ansiedade, depressão e sensação de vazio continuam subindo.

Tem alguma coisa estranha nessa conta. Nunca falamos tanto de saúde mental, nunca tivemos tantas ferramentas disponíveis, nunca o acesso a conteúdo sobre bem-estar foi tão fácil. E as pessoas seguem sofrendo, muitas vezes com uma camada extra de sofrimento que antes não existia: a culpa de não estar bem o suficiente.

É sobre isso que quero falar.

5,6 tri
de dólares é o tamanho do mercado global de wellness em 2024, crescimento de 12% ao ano, enquanto a prevalência de ansiedade e depressão cresceu 25% no mesmo período. Global Wellness Institute 2024 / OMS 2023

Como chegamos aqui

Nos últimos séculos construímos uma sociedade muito mais segura do que qualquer geração anterior viveu. A ameaça imediata de predadores, guerras tribais e fome deixou de ser realidade cotidiana para a maioria das pessoas.

O sistema nervoso humano foi construído para detectar ameaças e mobilizar resposta. Durante centenas de milhares de anos, isso tinha um objeto concreto. Um predador. Um grupo rival. Uma estação de seca. O medo servia para algo.

Hoje, na ausência dessas ameaças concretas, o mesmo sistema continua funcionando. Mas agora ele aponta para coisas menores, para incertezas abstratas, para comparações sociais, para a sensação de que algo pode dar errado. O problema não some. Ele muda de endereço.

Isso seria manejável se tivéssemos desenvolvido a capacidade de tolerar esse desconforto. Mas o que aconteceu foi o oposto: criamos um mercado inteiro dedicado a aliviar o desconforto o mais rápido possível.

O problema com a psicologia positiva

Preciso ser honesto aqui sobre algo que vai contra boa parte do que circula nas redes.

A psicologia positiva surgiu com uma proposta legítima. Martin Seligman, nos anos 1990, propôs que a psicologia tinha passado tempo demais focada em doença e pouco tempo estudando o que faz pessoas florescerem. Faz sentido como campo de pesquisa.

O problema foi o que o mercado fez com isso.

A pesquisa virou produto. Virou regra. Virou pressão. Gratidão diária, mindfulness matinal, visualização de metas, lista de coisas boas do dia, exercício de apreciação, journaling de emoções positivas. Cada prática isolada tem alguma evidência. O conjunto virou uma lista de obrigações que, se você não cumprir, sugere que sua vida mental está em ordem errada.

Atendo pessoas que chegam ao consultório se sentindo mal por não conseguir manter o hábito de gratidão. Que sentem culpa quando não meditam. Que se comparam com a pessoa do Instagram que acorda às 5 da manhã em paz consigo mesma e termina o dia com um smoothie verde e um diário de vitórias.

A ferramenta que deveria ajudar virou mais uma fonte de inadequação.

"O sofrimento desnecessário mais comum que vejo no consultório não vem de problemas reais. Vem de pessoas que acham que deveriam estar melhor do que estão."

Carlos Homem

Práticas paliativas e a confusão entre alívio e solução

Tem uma diferença importante entre uma prática que te ajuda a funcionar melhor no longo prazo e uma prática que te faz sentir bem agora mas não muda nada por baixo.

O mercado do bem-estar é muito bom em vender a segunda como se fosse a primeira.

Massagem, spa, retiro de meditação, banho de imersão, aromaterapia, cristal energizado. Não tenho nada contra nenhum desses. Se relaxam, ótimo. O problema é quando se tornam a resposta para ansiedade crônica, vazio emocional, padrões de comportamento que se repetem há anos.

Em mais de mil atendimentos, vi um padrão claro: pessoas que passam anos consumindo práticas paliativas sem nunca chegar no que está gerando o desconforto. A meditação acalma por trinta minutos. A ansiedade volta. Então mais meditação. Mais recursos. Mais práticas. Mais conteúdo sobre como viver melhor.

O alívio temporário virou um ciclo que mantém a pessoa ocupada sem resolver nada de fundo.

A pergunta que vale fazer: depois de dois anos fazendo tudo isso, você está genuinamente diferente ou está mais dependente das práticas para funcionar?

Mercado wellness e praticas paliativas - a diferenca entre alivio temporario e mudanca real
A diferença entre uma prática paliativa e uma mudança real: a primeira reduz o desconforto temporariamente. A segunda constrói capacidade. Com o tempo, você precisa da prática cada vez menos, não cada vez mais.

A comparação que cria sofrimento onde não havia

Existe um efeito colateral do mercado wellness que raramente é discutido: ele criou um novo padrão de comparação social.

Antes você se comparava em coisas concretas. Salário, casa, carro. Agora você se compara em algo muito mais íntimo: o quanto parece estar em paz consigo mesmo.

A pessoa que não tem acesso a retiro de meditação, que não pode pagar terapeuta particular todo mês, que trabalha o dia inteiro e chega em casa sem energia para jornaling, essa pessoa é bombardeada de conteúdo que diz que a vida dela poderia ser muito melhor se ela priorizasse o bem-estar.

Resultado: ela se sente mal por não estar bem. Culpada por não ter a disciplina necessária. Com a impressão de que a vida dela é pior do que deveria ser, quando na verdade ela só não tem acesso aos produtos do mercado que prometem fazer você se sentir bem.

Isso é sofrimento criado do zero. Antes desse mercado, essa pessoa vivia sua vida sem a sensação de que estava falhando em algo chamado bem-estar.

62%
dos usuários de apps de meditação e bem-estar relatam sentir culpa ou ansiedade quando não conseguem manter a rotina de práticas recomendadas. Journal of Medical Internet Research, 2023

Você não precisa estar bem a todo momento

Essa frase parece óbvia. E ao mesmo tempo vai contra tudo que o mercado de saúde mental e bem-estar comunica.

Tristeza faz parte. Frustração faz parte. Ansiedade faz parte. Dias ruins fazem parte. Momentos de vazio fazem parte. Esses estados não são sinais de que algo está errado com você. São sinais de que você é humano, que as coisas importam pra você, que você está vivo dentro da sua própria vida.

O problema começa quando o desconforto emocional passa a ser tratado como falha a ser corrigida. Quando a meta é eliminar as emoções difíceis em vez de desenvolver a capacidade de atravessá-las.

Os estoicos gregos e romanos, dois mil anos antes da neurociência moderna, já tinham entendido isso. Epicteto, Marco Aurélio, Sêneca: todos escreveram sobre a necessidade de se preparar para a adversidade, de construir tolerância ao desconforto, de entender que a vida vai trazer dificuldade e que isso não é o problema. O problema é chegar na dificuldade sem ter se preparado para ela.

A preparação que eles descreviam não era meditação para relaxar. Era prática deliberada de encarar o que é difícil.

A diferença entre força e paliativos

Atendi ao longo dos anos pessoas que chegavam depois de anos de práticas de bem-estar sem resolução. Massagem, app de mindfulness, terapia quinzenal indefinida, retiro de final de semana. Tudo funcionava por um período. Nada mudava de fundo.

Quando o trabalho chegava numa camada mais funda, na origem do padrão que produzia o desconforto, a mudança tinha uma qualidade diferente. A pessoa não precisava mais da prática para funcionar. Ela funcionava. O bem-estar vinha como consequência de estar resolvida por dentro, não como produto que precisava ser consumido todo dia.

Tem uma diferença enorme entre uma pessoa que medita todo dia para aguentar a ansiedade e uma pessoa que resolveu a origem da ansiedade e medita porque gosta.

A primeira está gerenciando um sintoma. A segunda está vivendo.

O que vejo nas pessoas que se tornam genuinamente mais fortes

Depois de mais de mil atendimentos, identifiquei uma diferença clara entre quem muda de verdade e quem consome bem-estar sem sair do lugar.

Quem muda de verdade, em algum momento, aceita o desconforto em vez de buscar alívio imediato. Para de fugir da conversa difícil, do conflito, do processo terapêutico que vai fundo. Tolera o período em que as coisas pioram antes de melhorar, porque entende que é parte do processo.

Quem fica no lugar acumula práticas que diminuem o desconforto temporariamente. Cada vez que algo difícil aparece, busca um alívio rápido. Com o tempo, a tolerância ao desconforto diminui. A dependência das práticas aumenta. E a sensação de que precisa de mais para funcionar cresce.

O estoico diria que a felicidade real não vem de eliminar o difícil. Vem de se tornar alguém capaz de atravessar o difícil sem perder o rumo.

O mercado wellness raramente vende isso. Porque essa transformação não precisa de produto novo todo mês.

O que fazer com tudo isso

Não estou dizendo para largar a meditação, parar de fazer terapia ou ignorar as ferramentas que funcionam pra você. Estou dizendo para fazer uma pergunta honesta: o que estou consumindo está me tornando mais capaz ou mais dependente?

Se depois de dois anos fazendo as mesmas práticas você ainda precisa delas no mesmo nível para funcionar, talvez valha investigar o que está por baixo. Porque uma prática que funciona de verdade vai construindo capacidade ao longo do tempo. Você precisa dela cada vez menos, ou a usa por escolha, não por necessidade.

Adversidade é parte da vida. Nem toda emoção difícil precisa ser resolvida. Nem todo desconforto precisa de uma prática. Algumas coisas precisam ser simplesmente atravessadas.

E a pessoa que desenvolveu a capacidade de atravessar coisas difíceis tem uma qualidade de vida que nenhum mercado wellness consegue vender.

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Perguntas frequentes

Por que faço meditação e continuo ansioso?
Meditação e outras práticas de bem-estar funcionam como alívio temporário de sintomas. Se a origem da ansiedade não for trabalhada, a prática acalma por um período e a ansiedade volta. Com o tempo, isso cria um ciclo onde a pessoa depende cada vez mais das práticas para funcionar, sem nunca chegar no que está gerando o desconforto. A questão a fazer: depois de dois anos, estou mais capaz ou mais dependente?
Sente culpa por não meditar ou manter hábitos de bem-estar?
Essa culpa é um efeito colateral do mercado wellness. Pesquisa de 2023 no Journal of Medical Internet Research mostrou que 62% dos usuários de apps de bem-estar sentem culpa ou ansiedade quando não conseguem manter a rotina. Você não precisa estar bem a todo momento. Tristeza, frustração e ansiedade fazem parte da vida, não são falhas a corrigir.
O que é errado na psicologia positiva?
A pesquisa original de Seligman é legítima. O problema foi o que o mercado fez com ela: transformou achados científicos em lista de obrigações diárias. O conjunto de práticas virou pressão. A ferramenta que deveria ajudar virou mais uma fonte de inadequação para quem não consegue manter a rotina.
Qual a diferença entre práticas paliativas e trabalho real?
Práticas paliativas reduzem o desconforto temporariamente mas não mudam o que está por baixo. Trabalho terapêutico real chega à origem do padrão que produz o desconforto. Quando isso acontece, a pessoa não precisa mais da prática para funcionar. O bem-estar vem como consequência de estar resolvida por dentro.
Fazer terapia por anos e não mudar é normal?
Terapia de longa duração sem critério de encerramento pode cumprir função de suporte contínuo sem produzir autonomia. Se depois de dois anos fazendo as mesmas práticas você ainda precisa delas no mesmo nível, talvez valha investigar o que está por baixo. Uma prática que funciona constrói capacidade ao longo do tempo. Você precisa dela cada vez menos, ou a usa por escolha.
Fontes e Referências
  • Global Wellness Institute (2024). Global Wellness Economy Monitor.
  • OMS (2023). World Mental Health Report.
  • Seligman, M.E.P. (2011). Flourish. Free Press.
  • Ehrenreich, B. (2009). Bright-Sided. Metropolitan Books.
  • Haidt, J. (2006). The Happiness Hypothesis. Basic Books.
  • Marco Aurélio. Meditações. Livros II e IV.
  • Journal of Medical Internet Research (2023). Side effects of wellness apps: guilt and anxiety in non-adherent users.