Hipnoterapia é o uso do estado hipnótico como ferramenta terapêutica. A pessoa entra num estado de atenção concentrada e relaxamento profundo. A parte analítica da mente relaxa. E isso abre espaço para trabalhar padrões que no estado normal são difíceis de acessar.
É isso. Sem mistério, sem pêndulo, sem dormir na cadeira.
Atendo há anos usando hipnoterapia como uma das ferramentas do meu trabalho. Nunca tive um cliente que perdeu a consciência, que não lembrou de nada, ou que fez algo que não queria. Isso existe em show de entretenimento. Na clínica, não.
Tive um paciente que resumiu bem o que hipnose não é
O Rodrigo chegou na primeira sessão com uma história pronta na cabeça. Tinha visto um programa de TV onde alguém ficava dormindo, cumpria ordens esquisitas e acordava sem lembrar de nada. Ele queria tentar, mas estava com um pé atrás.
Passou a primeira meia hora me perguntando se ia perder o controle. Expliquei o que explico sempre: hipnose é um estado de foco, não de inconsciência. Você ouve tudo. Pode sair quando quiser. Ninguém planta nada na sua cabeça sem você deixar.
No final da sessão ele disse: "parece meditação, mas com alguém te guiando pra algum lugar específico." É uma boa descrição.
O que muda no cérebro durante a hipnose?
Em 2016, pesquisadores de Stanford publicaram na revista Cerebral Cortex um estudo de neuroimagem que mapeou o que acontece no cérebro durante hipnose. Encontraram três mudanças consistentes.
Primeiro: redução na atividade do córtex pré-frontal dorsolateral, a região que avalia, julga e filtra. Quando estamos acordados e alertas, essa é a parte que questiona, duvida e bloqueia. Na hipnose, ela recua.
Segundo: aumento da conectividade entre essa região e a ínsula, que processa sensações corporais e emoções. O cérebro começa a integrar mais o que o corpo sente com o que a mente processa. É por isso que muitas pessoas descrevem sensações físicas intensas durante as sessões.
Terceiro: maior capacidade de dissociação entre ação e consciência da ação. Você consegue fazer ou imaginar algo sem o filtro crítico que normalmente diz "isso não vai funcionar" ou "eu não consigo". É o que abre espaço para instalar respostas novas onde antes só existiam padrões antigos.
Um adendo importante: só no PubMed, a principal base de dados de literatura científica da saúde, gerida pela National Library of Medicine dos EUA, existem mais de 16 mil estudos sobre hipnose e hipnoterapia. Quem chega achando que é algo místico ou que vai ter uma transformação sem esforço, o processo talvez não seja pra você.
O que isso significa na prática: o cérebro fica mais receptivo e menos defensivo. As sugestões entram com menos resistência. E o trabalho terapêutico que em estado normal levaria meses de conversa pode acontecer de forma mais direta.
Isso tem base neurológica documentada. Não é crença.
"No estado hipnótico a mente para de se defender e começa a escutar. É aí que o trabalho real acontece."
Carlos Homem
Para que serve hipnoterapia? O que as evidências mostram
As áreas com evidências mais sólidas são: ansiedade e fobias, dor crônica, síndrome do intestino irritável, distúrbios do sono e cessação do tabagismo. Para essas condições existem revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados.
Uma meta-análise de Irving Kirsch, publicada no Journal of Consulting and Clinical Psychology, comparou psicoterapia com e sem hipnose. O grupo com hipnose teve resultados 70% melhores ao final do tratamento. E ao contrário do outro grupo, continuou melhorando no acompanhamento de 8 a 24 meses depois.
Hipnoterapia também entra bem como parte de um processo maior: traumas, bloqueios emocionais, padrões que resistem à abordagem verbal. Não porque substitui a conversa terapêutica, mas porque acessa uma camada que a conversa alcança com mais dificuldade.
Como é uma sessão na prática?
A primeira sessão (primeiro contato comigo) não tem hipnose, esqueça essa história de que você precisa experimentar a hipnose para tomar a decisão de investir no processo, pois afinal, o processo não é sobre isso. É conversa. Preciso entender o que te trouxe, sua história, suas demandas, como o problema aparece no dia a dia, o que você já tentou. Esse mapeamento é o que torna o meu trabalho útil e assertivo depois. Sem ele é técnica aplicada no escuro.
Esse é um erro de muitos profissionais medianos e sem experiência, eles querem vender a hipnose como uma pílula mágica, fizeram um curso superficial, repleto de mitos, nunca estudaram a fundo pessoas, sobre antropologia, sobre neurociência, apenas decoraram técnicas que não funcionam na vida real.
Quando chegamos à indução, e isso ocorre no segundo encontro, ou primeiro, após a decisão de passar pela hipnoterapia, o processo é simples. Uma voz guiando o relaxamento progressivo do corpo, atenção redirecionada para sensações internas, respiração que vai ficando mais lenta. Em dez a quinze minutos a maioria das pessoas está num estado de relaxamento que muitas nunca experimentaram acordadas.
O que acontece nesse estado depende do objetivo. Pode ser visualização de situações que disparam ansiedade, com sugestão de uma resposta diferente. Pode ser exploração de uma memória que ainda carrega carga emocional. Pode ser instalação de recursos — criar internamente a experiência de competência em algo que a pessoa sente que não tem.
No final, reorientação gradual. Você sai lúcido, geralmente lembrando de tudo, quase sempre com sensação de "tirei um peso das costas e agora eu consigo enxergar". A sessão dura entre 120 e 150 minutos.
O que hipnoterapia não faz
Não cura doenças físicas graves. Não elimina vícios complexos sozinha. Não resolve todos os problemas da sua vida em três sessões. Não faz você revelar segredos que não quer revelar. Não te deixa preso em transe.
Isso precisa ser dito porque o mercado está cheio de promessas que não se sustentam. Quando alguém vende hipnoterapia como solução completa para qualquer coisa em sessão única, está vendendo algo que a ciência não confirma.
O que ela faz: abre acesso a camadas da mente que outras abordagens alcançam com mais dificuldade e tempo. Isso já é muito. Mas dentro de um processo, com profissional que sabe o que está fazendo.
Hipnoterapia funciona para todo mundo?
Não. Cerca de 10 a 15% das pessoas têm dificuldade consistente para entrar em estado hipnótico. Está relacionado a traços como rigidez cognitiva e dificuldade de foco. Não é falha de ninguém.
A maioria das pessoas, entre 70 e 80%, responde bem o suficiente para um trabalho terapêutico real. E existe uma faixa de 10 a 15% que entra em estado profundo com muita facilidade e tende a ter resultados mais rápidos.
Existem também contraindicações clínicas: psicose ativa, alguns transtornos dissociativos, e epilepsia fotossensível com certas técnicas de indução. Profissional com formação adequada sabe como adaptar ou encaminhar nesses casos.
Por onde começar se você está considerando a hipnoterapia
Primeiro: procure terapeuta com formação documentada. No Brasil, a Omni Hypnosis Training Center, a Sociedade Brasileira de Hipnose (SOBRAH) e a Associação Médica Brasileira de Hipnose (AMBRAH) são referências. Formação séria tem entre 80 e 200 horas de teoria e prática supervisionada. Curso de fim de semana não conta.
Segundo: tenha clareza sobre o que quer trabalhar. "Quero melhorar minha vida" é vago demais para guiar qualquer processo. "Tenho ansiedade em apresentações de trabalho que trava minha performance há dois anos" é uma queixa que dá para trabalhar. Mas ainda sim um bom profissional consegue conduzi-lo para melhorar a sua vida entendendo suas verdadeiras demandas.
Terceiro: dê tempo ao processo. Os resultados mais consistentes sempre aparecem, podendo ser na primeira sessão, ou até mesmo nos meses que se seguem após o processo. Quem chega esperando transformação de imediato ainda não entendeu o processo, independente da abordagem.
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Perguntas frequentes sobre hipnoterapia
- Jiang, H. et al. (2016). Brain activity and functional connectivity associated with hypnosis. Cerebral Cortex, Oxford Academic.
- Kirsch, I. et al. (1995). Hypnotic enhancement of cognitive-behavioral weight loss treatments. Journal of Consulting and Clinical Psychology.
- Cordi, M. J. & Schlarb, A. A. (2014). Deepening sleep by hypnotic suggestion. Sleep, Oxford Academic.
- Sociedade Brasileira de Hipnose (SOBRAH): sobrah.com.br
- Resolução CFP nº 013/2013: reconhecimento da hipnose como prática psicológica no Brasil.